Analisando Tom Jobim

Outro dia estava ouvindo novamente o Terra Brasilis do Tom Jobim. Se você não conhece, eu aconselho imediatamente ouvir esse álbum e o Matita Perê.

A música Olha Maria é a terceira faixa do álbum e, sempre que ouço essa faixa, eu fico surpreendido com essa música. A introdução é algo impressionante e vai ser exatamente o foco da minha análise.

A Música

Partitura do Trecho

tom jobim intro

Introdução

O primeiro ponto é que essa introdução não é tonal, mas, sim, modal. O uso da nota pedal e, principalmente, do dó bemol caracterizam a sonoridade do si bemol frígio, veja:

N.C = Nota Característica

Gb

Bb frígio

O modo frígo, em especial no jazz, é muito comum usar o acorde sus4(b9). E é exatamente esse acorde que começa a introdução.

susb9

Para falar a verdade, a introdução é trabalhada em cima desse acorde até o compasso 5, onde volta para a estrutura inicial. Tom Jobim trabalha conduzindo uma voz na parte intermediária resultando em outros acordes. Digo resultando, pois a estrutura do sus4(b9) permanece intacta.

conducao da voz

Os acordes dos compassos 6 e 7 eu considero como clusters. Clusters são acordes formados por intervalos de segunda (maior ou menor). 

Cluster

Compasso 6

Compasso 7

No compasso oito temos um Bb7(alt). 

compasso 8

Em um manuscrito do Tom Jobim esse acorde de Bb7 aparece com a nona menor, mas na versão que eu peguei, a do Paulo Jobim, esse acorde não possui a nona menor. Entretanto, a parte seguinte confirma o uso da escala alterada.

melodia alterada

Acredito que esse trecho merece uma atenção especial, pois além desse fragmento da escala alterada, existe o segundo fragmento que é um acorde aumentado. O que me faz pensar em uma mistura de escalas.

Fragmento aumentado

E a minha primeira opção de escala é a de tons inteiros. Primeiro pelo acorde aumentado e depois por ser bem parecido com a escala alterada.

Escala de tons inteiros

Escala alterada

Escala de tons inteiros

E pra finalizar, Tom Jobim faz Abm6 e G7 para preparar o acorde de Cm.

final

O Abm6 possui as mesmas notas de G7. 

Será o Abm6 uma função dominante, ou seja, um Db7 disfarçado? Será a nota lá bemol uma apogiatura da nota sol gerando um acorde resultante?

Assista o vídeo onde mostro a função dominante do acorde Xm6.

Conclusão

Análise, como eu sempre digo, é uma interpretação sua sobre a peça. Não há verdade absoluta, a não ser que você pergunte para o compositor. Mas Tom Jobim não está mais entre nós, só nos resta analisar suas obras e aprender a tirar o máximo de informação com elas.

Gostou? Comente

Tem dúvidas? Pergunte!

Até a próxima!

3 de fevereiro de 2017

2 Respostas em "Analisando Tom Jobim"

  1. Muito legal a análise!
    O mais impressionante é que as músicas dele são complicadas de reharmonizar.
    Ele consegue imprimir a harmonia e as escalas com naturalidade, sem ficar forçado.
    Sabe exatamente o que quer e provoca.

    Show de Bola, Michael!

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