Rearmonização – Acordes Ocultos

Introdução

Quando rearmonizamos uma melodia, principalmente qual ela é famosa, não é uma tarefa muito simples. Na maior parte do tempo a harmonia serve de suporte para a melodia, mas quando a harmonia é tão cheia de personalidade, ou seja, quando a harmonia está entranhada na melodia, fica mais difícil de rearmonizar. Isso se deve ao fato da sonoridade ser bem famosa, ou seja, basta a pessoa ouvir a harmonia que já reconhece a música. Quando estamos em um processo de rearmonização de um arranjo, esse assunto sempre vem à tona, pois se você fizer algo não muito agradável, pode ser que você “mate” a música.

 

Eu sempre digo em minhas aulas de harmonia que se a harmonia original da música for boa é melhor deixar quieto, ou seja, não rearmonizar. Contudo isso não é o fim do mundo, pois há diversas formas de você demonstrar o seu talento. A principal forma é mudar a harmonia na repetição, ou seja, você pode deixar a harmonia original na apresentação do tema e mudar a harmonia na repetição ou repetições de cada seção. Outra forma é no intermezzo, onde você tem total liberdade de mostrar suas técnicas, é o momento do arranjador.

Descobrindo os Acordes Ocultos

Algo muito simples, mas que passa despercebido nos estudantes de harmonia é que é possível enxergar outros acordes na mesma cifra. Quando estudamos a função harmônica vemos quais acordes possuem a mesma função para substituição, certo? Porém devemos prestar atenção nas notas que o acorde nos proporciona, já que a inversão também ajuda a gerar outros acordes.

Vamos pegar a melodia da introdução da música Tarde em Itapuã.

Perceba que essa harmonia, muito simples (não no sentido pejorativo), possui uma linha melódica marcante e mudar isso pode ser um completo desastre, mas temos inúmeras possibilidades de rearmonizar, pois os acordes de Gm(b6) e Gm6 podem ser outros acordes.

A cifragem faz da gente um pouco preguiçoso, ela representa o acorde, mas na prática ela representa o desenho do acorde. Quem toca violão ou guitarra sabe do que eu estou falando, pois é mais fácil decorar desenhos do que saber as notas dos acordes. Infelizmente esse é um dos motivos que muita gente não consegue harmonizar uma melodia, por não saber as notas que o acorde possui.

Vamos pegar o acorde de Gm(b6) como exemplo.

Este acorde está cifrado desta forma por causa da melodia intermediária, então ele não deixa de ser um Eb7M/G.

Logo, ao acharmos este acorde “oculto”, já começa a abrir nosso leque de opções, pois a melodia está tocando a 5ª justa do acorde, certo? Então podemos ter os seguintes acordes:

Lembrando que todos esses acordes possuem inversões, ou seja, é muita possibilidade. Além disso, eu estou apenas pegando as opções que o acorde original está me mostrando.

O acorde menor com a sexta já é um velho amigo aqui da Universidade, pois tem uma aula sobre ele onde mostro como e quais acordes podem ser gerados a partir de suas notas.

Exemplos

Harmonização 1

Para esta rearmonização eu simplesmente coloquei os acordes no estado fundamental. Gm(b6) = Eb7M e Gm6 = Em7(b5).

Harmonização 2

Nesta segunda rearmonização eu resolvi fazer uma linha de baixo cromática depois do Eb7(9). O Gm6 agora está na segunda inversão e o Gm(b6), que foi substituído pelo Eb7(9), está na terceira inversão, isto é, com a sétima no baixo.

Harmonização 3

Esta terceira rearmonização eu transformei o Gm7 em Bb6/9 e troquei o Eb7M pelo Eb7(9) dando uma sonoridade meio blues.

Harmonização 4

Para esta quarta rearmonização eu coloquei a décima primeira (11) no sol para fazer um contraponto com a melodia repetindo a ideia original, só que com outras notas. Além disso, o Ebm7 no estado fundamental soa mais forte, mas ele invertido, gerando o acorde de Gb6/9, soa mais suave. Isso se deve ao fato da condução harmônica e a ideia do contraponto.

Conclusão

Saber as notas e as possibilidades de notas de tensão são fundamentais para uma harmonização, pois o estudo da harmonia vai além das cifras, afinal de contas a cifra é a representação do acorde.

Saber conduzir as vozes da harmonia também é fundamental para qualquer arranjador, pois são diversas possibilidades de sonoridades e texturas que podem ser aplicadas em uma harmonização/rearmonização.

 

 

Um grande abraço!

11 de agosto de 2020

2 Respostas em "Rearmonização - Acordes Ocultos"

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